31 outubro 2006

Nein (ou "Crise tardia")


Quando eu ainda estava moço
Algum pressentimento
Me trazia volta e meia
Por aqui
Talvez à espera da garota
Que naquele tempo
Andava longe, muito longe
De existir

Tantos tristes fados eu compus
Quanto choro em vão, bolero, blues

Eis que do nada ela aparece
Com o vestido ao vento
Já tão desejada
Que não cabe em si

Neste crucial momento
Neste cruzamento
Se ela olhar para trás
É bem capaz de num lamento
Acudir ao meu olhar mendigo
Mas aquela ingrata corre
E a Barão da Torre e a Vinicius de Moraes
São de repente estranhas ruas
Sem o seu vestido ficam nuas
E ao vento eu digo:
– Tarde demais...

Quando ela já não mais garota
Der a meia-volta
Claro que não vou estar mais nem aí

("Bolero blues" -- Chico Buarque: Carioca)

28 outubro 2006

Elegia à literatura que me estraga



"Caminhas entre mortos e com eles conversas
Sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
E adiar para o outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
Porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan"

(Trecho de "Elegia 1938" -- Carlos Drummond de Andrade: Sentimento do Mundo)

27 outubro 2006

PlastiCidade

26 outubro 2006

Virginia de Medeiros na 27a. Bienal


A instalação Studio Butterfly estreou na edição 2005/2006 do programa “Rumos Itaú Cultural Artes Visuais”. Representa o estúdio real, em Salvador, onde, em 2003, Virginia recebeu e fotografou travestis em troca de fotos pessoais e entrevistas. O conjunto desse trabalho derivou vídeos, fotos e textos. No mote do tema da 27a. Bienal Internacional de São Paulo -- "Como viver junto" --, Virginia apresenta três vídeos produzidos a partir dessa experiência.
Se você se deparar com um livreto de contos, impresso em papel-jornal, na bancada em frente à projeção (Contos -- Virginia de Medeiros), pegue, leve e leia. Vale a pena! Caso você não dê essa sorte (os livretos esgotam-se repentinamente), Virginia disponibilizou ao site Mix Brasil um dos contos, "Malas", que pode ser acessado pelo link http://mixbrasil.uol.com.br/id/trans/baia/baia.shtm
Clica lá!

20 outubro 2006

Poemeto erótico


“Teu corpo claro e perfeito,
- Teu corpo de maravilha,
Quero possuí-lo no leito
Estreito da redondilha...
Teu corpo é tudo o que cheira...
Rosa... flor de laranjeira...
Teu corpo, branco e macio,
É como um véu de noivado...
Teu corpo é pomo doirado...
Rosal queimado do estio,
Desfalecido em perfume...
Teu corpo é a brasa do lume...
Teu corpo é chama e flameja
Como à tarde os horizontes...
É puro como nas fontes
A água clara que serpeja,
Que em cantigas se derrama...
Volúpia da água e da chama...
A todo momento o vejo...
Teu corpo... a única ilha
No oceanoa do meu desejo...
Teu corpo é tudo o que brilha,
Teu corpo é tudo o que cheira...
Rosa, flor de laranjeira...”

(Manuel Bandeira: A Cinza das Horas)

17 outubro 2006

Pela rua


"A cidade é grande
tem quatro milhões de habitantes e tu és uma só.
Em algum lugar estás a esta hora, parada ou andando,
talvez na rua ao lado, talvez na praia
talvez converses num bar distante
ou no terraço desse edifício em frente,
talvez estejas vindo ao meu encontro, sem o saberes,
misturada às pessoas que vejo ao longo da Avenida.
Mas que esperança!
Tenho uma chance em quatro milhões.
Ah, se ao menos fosses mil
disseminada pela cidade.

A noite se ergue comercial
nas constelações da Avenida.
Sem qualquer esperança
continuo
e meu coração vai repetindo teu nome
abafado pelo barulho dos motores
solto ao fumo da gasolina queimada."

(Trecho de "Pela rua" -- Ferreira Gullar: Dentro da Noite Veloz)