16 maio 2009

Adriana Calcanhotto: meu retrato


“Personalidade controversa” –- pra abrir esta postagem com um chavão -–, Adriana Calcanhotto é o tipo que não agrada a todos, nem se pretende a tal.
O que me intriga em Adriana são sua sensibilidade e sua, digamos, “erudição poética” (convenhamos: Adriana é douta* nesse quesito, o que é inconteste).
Considerando que ela largou a escola no antigo “segundo colegial” não tendo mais retornado (fonte: por suas próprias palavras, em entrevista para IstoÉ em 2007: “Larguei a escola e nunca mais voltei.”), isso mostra o quanto toda “boa cultura” que ela transpira é fruto de um autodidatismo dosado em sua sensibilidade –- sem isso não se fazem gênios (nem loucos!).
Adriana está entre uma coisa e outra.
Sofre a dor do mundo.
Não a considero uma cantora, mas uma poetisa que canta.
Vejo nela o mesmo que via em Renato Russo.
Trata-se de personalidades “existencialistas”. Vivem a angústia do viver –- por isso compõem, por isso cantam, assim como outros escrevem poesia, pintam, esculpem. “Personas perturbadas” (no bom sentido –- ótimo, aliás).
Diz-se de Michelangelo que era alguém assim –- estou falando de Michelangelo Merisi, mais conhecido como Caravaggio, alcunha toponímica que tomou pra si. Um “perturbador da ordem pública”. Cazuza estava mais pra este tipo: os perturbadores. Outros, entretanto, não perturbam o mundo -- sentem que o mundo os perturba, o que expressam na arte tanto quanto aqueles: são os perturbados. É entre estes que encaixo Renato -- e Adriana.
Heteronímica como Fernando Pessoa, aparta-se de si para produzir um CD para crianças –- inclusive com assinatura de contratos separados na gravadora –- arte manifesta por outra persona: Partimpim.
Introspectiva, reservada, não gosta de expor sua vida pessoal, especialmente a amorosa –- “Tenho uma tendência a pensar que isso não interessa às pessoas.
Está certíssima! Eu mesma posso dizer que meu interesse nela se restringe ao fascínio que sua música causa em mim. Se é lés, se não é (em benefício próprio, eu preferia que ela fosse). Se contraiu concubinato ou vive sozinha. Se gosta de goiaba ou prefere framboesa. Nada disso vem ao caso.
Vitimada por um surto psicótico induzido por interação medicamentosa durante a turnê de lançamento de seu CD Maré em Portugal, extravasa em um livro suas angústias, medos e sensações e publica Saga Lusa. Lerei, certamente!
Enfim: este é MEU RETRATO de Adriana Calcanhotto.
Nós, os ditos fãs, cultivamos o péssimo hábito de “achar que sabemos” sobre nossos “ídolos” (detesto essa palavra!). Não tenho essa pretensão (mal sei de minha própria vida, que dirá!) nem tive aqui essa ambição.
Não sei se esta Adriana que pintei faz jus à verdadeira ou ao menos a ela corresponde em algo (possivelmente não condiz, à exceção dos fatos reais aqui narrados; no mais, são impressões).
Só quis falar aqui da “minha” Adriana, a que eu percebo DESTA forma: bela e perturbada (para nossa sorte!).
Ainda bem que há pessoas assim, cuja arte, expressão dessa angústia, possamos desfrutar.
Afinal, falta isso neste mundo: a inebriante beleza e a sábia loucura.
Obs. (aviso aos incautos): douta aqui não está sendo usado em sentido “acadêmico”; refiro-me àqueles que conhecem bem e apreciam algo -- neste exemplo, a poesia : de Mário de Sá Carneiro, passando por Bandeira a Ferreira Gullar até poetas contemporâneos, no caso de Adriana.

P.S.: Adriana estará neste final de semana no HSBC Brasil (16/5 às 22h; 17/5 às 20h) com seu show Maré. Os preços variam de R$ 60 a R$ 140.

04 maio 2009

Capa redescoberto


Quase 70 anos depois de serem enviadas para o México, caixas com mais de três mil fotografias inéditas da Guerra Civil espanhola tiradas por Robert Capa foram agora descobertas.
A notícia, anunciada pelo jornal norte-americano The New York Times, revela que as três caixas, contendo 127 rolos de filmes, enviadas em 1940 ao general mexicano Francisco Javier Aguilar González, então diplomata na França, foram localizadas pela cineasta Trisha Ziff por intermédio de descendentes de Aguilar González.
As imagens, algumas das quais captadas por Gerda Taro, companheira de Capa, e por David Seymour, mostram combates e cenas cotidianas durante os anos da Guerra Civil na Espanha.

Fonte: IOL Portugal Diário